I Bienal de Artes Visuais do Mercosul

EDITORIAL: NA ESSÊNCIA DESTA BIENAL, A VISÃO PARA UM LEGADO INTEGRACIONISTA

Quase mil obras, de 180 artistas, de sete países, estão sendo expostas , desde segunda-feira última, em Porto Alegre (RS), onde se realiza a I BIENAL DE ARTES VISUAIS DO MERCOSUL, até 30 de novembro.
A proposta arrojada - de divulgar, fortalecer e afirmar a criatividade plástica e visual dos países do Mercado Comum do Sul, foi uma iniciativa do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, juntamente com um grupo de empresários gaúchos e artistas plásticos - reconhecida pela UNESCO. A BIENAL, criada pela Fundação de Artes Visuais do Mercosul, instituída em 11 de junho do ano passado, é presidida pelo empresário e colecionador de arte Justo Werlang.

Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Bolívia - que integram o Mercosul - e Venezuela como país convidado, revelam seus maiores talentos, suas idéias, seus esforços de pesquisa técnica utilizadas para expressar suas percepções e interpretações da realidade latino-americana. Através de suas "armas de paz" ou "ferramentas", de suas perspectivas, nossos artistas contam a história, expressam suas críticas, denúncias, e revelam expectativas: suas "visões".

A I Bienal do Mercosul reúne artistas - que têm a capacidade privilegiada de fundir, intuitivamente, experiências do nosso passado (até onde nem eles mesmo vivenciaram) e da realidade por eles testemunhada - expondo em suas obras "depoimentos" em belas formas.

Durante este período, teremos a oportunidade de não somente apreciar estas obras - e de aprofundarmo-nos nas "sutilezas explícitas" que revelam a alma do povo sul-americano - mas, finalmente, compreender a cultura em comum e mergulhar definitivamente no significado integracionista.

No sentido global da "ambição integracionista" - que começou com o Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai - num abraço que, efetivamente, já envolve o Chile e Bolívia, se extende à Venezula e busca alcançar outros países - a I BIENAL DO MERCOSUL é sim, um "projeto ambicioso".

Desde o tratado de Assunção, os povos do Mercosul, vimos intensificando, aperfeiçoando, errando e corrigindo, adaptando-nos a interesses e benefícios comuns. O foco inicial foi: as relações Comerciais & Políticas, surgindo, neste caminho, a necessidade de expandi-lo para as relações sociais, educacionais, de segurança, área judírica, topográfica, etc.

O foco cultural, no entanto, esteve carente de um planejamento oficial. Alguns "segmentos intelectuais e artísticos" começaram a forçar a abertura de "seu espaço" no movimento integracionista. Têm sido iniciativas conscientes, mas em eventuais realizações.

Porém, agora, a I Bienal de artes Visuais do Mercosul emerge como a base (pedra fundamental), de uma edificação que visa fortalecer e contribuir para com o objetivo de integração natural e definitiva dos povos.


ENTREVISTA

"UM PROJETO AMBICIOSO", DIZ JUSTO WERLANG, PRESIDENTE DA I BIENAL
" O Mercosul tem se demonstrado uma opção acertada frente aos desafios da globalização e maior competitividade internacional. No entanto, a integração econômica só terá sucesso se acompanhada de uma indispensável integração cultural.

> É necessário conhecermos nossas culturas para avaliar corretamente o que somos e do que somos capazes. Nossas sociedades caminham na mesma medida em que reconhecem e respeitam sua essência, cuja melhor manifestação é a arte.

> Este entendimento mobilizou o Governo do Estado do Rio Grande do Sul e um grupo de empresários e artistas plásticos, para a criação da entidade civil de direito privado - a Fundação Bienal das Artes Visuais do Mercosul, que realiza a I Bienal do Mercosul, nos meses de outubro e novembro de 1997, em Porto Alegre.

> O projeto é ambicioso. Reúne artistas de sete países, especialistas, críticos de todo o mundo e pretende mobilizar milhares de pessoas.

> A temática e o formato da I Bienal Mercosul, visam promover o mais amplo debate sobre questões estéticas, pretendendo, finalmente, dar início a urgente tarefa de reescrever a história da arte latino-americana, a partir de uma visão não exclusivamente euro norte-americana.

> Não se restringe a exposições. Intervenções na cidade, seminários internacionais e cursos de arte e educação, aproximarão a comunidade, artistas e teóricos, estimulando o entendimento dos processos de criação. Participe."

JUSTO WERLANG - Presidente da I Bienal do Mercosul



PROPOSTA

UMA BIENAL COM CONFIGURAÇÃO INÉDITA PROPOSTA DE EVENTOS DIVERSIFICADOS, COMPLETA O OBJETIVO DA ORGANIZAÇÃO. > A arte latino-americana possui três vertentes principais: construtiva, política e fantástica. A I Bienal do Mercosul ocupa-se das duas primeiras. A partir da proposta do curador Frederico Morais, a Bienal assume uma formatação especial abrangendo mostras, intervenções na cidade, seminários, ações pedagócicas e eventos sociais.
> Serão 15.000 metros quadrados de área de exposições, divididos em espaços especiais estratégicamente escolhidos em Porto Alegre, apresentando mostras da arte construtiva, do design latino-americano, vertente política, cartográfia, acervos brasileiros e jovens artistas (último lustro).

INTERVENÇÕES. > Diversas intervenções na cidade estarão ocorrendo em locais públicos: esculturas - que se integrarão ao patrimônio de Porto Alegre perpetuando a I Bienal do Mercosul - efêmeras e imaginário objetual da cidade.

SEMINÁRIOS INTERNACIONAIS. > Foram programados dois seminários de nível internacional, visando aprofundar os debates sobre: Utopias Latino Americanas, A América Latina vista da Europa e dos Estados Unidos e Arte, Educação e Comunidade.

AÇÕES PEDAGÓGICAS. > Estas, compostas de várias atividades interativas e visitas guiadas, visando o conhecimento de linguagens estáticas e, principalmente da vivência dos artistas dentro do seu próprio contexto social, possibilitando aos participantes uma reflexão de sua própria realidade.

EVENTOS SOCIAIS. > Diversos eventos sociais serão realizados até o encerramento dos trabalhos, bem como atividades pontuais nos locais das mostras, oficinas e áreas públicas.

I Bienal de Artes Visuais do Mercosul - 1997
Joaquin Torres-Garcia (Uruguay,1935) Universalismo Constructivo: "Contribuicíon a la Unificação del Arte y La Cultura de América" (Vertente Construtiva)

EXPOSIÇÕES

DOZE ESPAÇOS, PARA A I BIENAL
> Frederico Morais, curador geral da I Bienal de Artes Visuais do Mercosul - juntamente com o arquiteto Geraldo Vilaseca - selecionaram 12 espaços na cidade de Porto Alegre, para exposição das mais de 800 obras, de aproximadamente 200 artistas plásticos sul-americanos. Locais:
1 - Aplub (Av. Júlio de Castilhos, 44) - Xul Solar

2 - Casa de Cultura Mário Quintana (Rua dos Andradas, 736) - Arte e Tecnologia

3 - DC Navegantes - Último Lustro

4 - Edel ( Av. Loureiro da Silva, 1001) - Matta e Mário Pedrosa

5 - Usina do Gasômetro (Av. Pres. João Goulart, 551) - Vertente Cartográfica

6 - Instituto de Artes da Ufrgs ( Rua Senhor Dos Passos, 248) - Gerchman - Barrio - Contramestre

7 - Fundação Bienal (Antiga sede Iochpe - Rua Sete de Setembro, 1123) - Vertente Política

8 - Margs (Praça da Alfândega s/n) - Coleções Latino -Americanas

9 - Espaço Ulbra (Rua Cel. Vicente, 282) - Vertente Construtiva e Design

10- Museu de Comunicação Social (Rua dos Andradas, 959) - Assessoria de Imprensa

11- Reitoria Ufrgs (Av. Paulo da gama, 110) - Cildo Meireles e João Câmara

12- Theatro São Pedro (Praça da Matriz) - Francisco Stockinger



HOMENAGEM

HOMENAGEM AO PIONEIRISMO SURREALISTA DE XUL SOLAR
> Pioneiro na arte surrealista e antecessor de Paul Klee, amigo do escritor José Luis Borges, Alejandro Xul Solar, é o artista homenageado pela I Bienal de Artes Visuais do Mercosul. Suas obras estão expostas no Espaço Cultural Aplub, em Porto Alegre (RS), durante o período da Bienal.
> Xul Solar, nasceu em Buenos Aires, em 1887, filho único de Emilio Schulz Riga, alemão da Letônia, e de Agustina Solari, nascida em Gênova, Itália. Aos 16 anos adotou o pseudônimo de Xul Solar empregando equivalentes fonéticos dos sobrenomes do pai e da mãe. Erudito, possuindo um saber enciclopédico, interessou-se deste muito jovem por assuntos tão variados quanto religião, filosofia, a antroposofia de Rudolf Stener, a cabala judia, mitologias e sobretudo astrologia.

> Segundo depoimento de seus conterrâneos, falava e escrevia seis idiomas vivos, além do latim, do grego e do sânscrito. Este conhecimento lingüístico levou-o a criar duas línguas, o "neocrilo", fundada em raízes provenientes do latim, com expressões locais, latino-americanas, e "panlengua", que pode ser vista como uma das muitas construções similares ao "esperanto".

> Xul Solar integrou, nos anos 20, o grupo denominado Martin Fierro, que instaurou o modernismo na Argentina e do qual faziam parte, entre outros, Olivério Girondo, Macedônio Fernandez e Jorge Luiz Borges. Este, ao apresentar mostra de Xul Solar, em 1949, afirmou ser ele "um dos acontecimentos singulares de nossa época", afirmando, em outra oportunidade, que nunca conheceu um homem de "tão rica, heterogênea, imprevisível e incessante imaginação".

> O artista argentino produziu algumas centenas de desenhos, aquarelas (seu meio de expressão preferido) e pinturas, geralmente de pequeno porte, as quais, juntas, formam uma espécie de escritura plástica. Arte semiótica. Além da figura humana, estilizada geometricamente, mas sem perder sua dimensão mágica, das arquiteturas e bandeiras, proliferam em suas obras signos e símbolos, muitos deles esotéricos e arcaizantes, tais como estrelas, flechas, hieróglifos, números, letras, etc.

> Signos e símbolos que ocupam um espaço mental e imaginário, isto é, não-realista. Em suas proposições, Xul Solar antecipa-se ao Surrealismo, assim como tangencia o Maneirismo e o Dada. Sua pintura não exige uma interpretação literal de seu sentido, podendo ser apreciada independente das questões místicas e esotéricas que a fundam.

I Bienal de Artes Visuais do Mercosul - 1997

I Bienal de Artes Visuais do Mercosul - 1997

INFORME

CARTAZ DA I BIENAL DO MERCOSUL É OBRA DE ARTISTA GAÚCHO
> Marcos Oliveria, gaúcho nascido em Novo Hamburgo, venceu o grande concurso para a escolha do cartaz da I Bienal de Artes Visuais do Mercosul. A escolha ocorreu em 20 de abril, por um juri composto por Justo Werlang, presidente da Fundação Bienal; Frederico Morais, curador geral; e os designers gráficos Rubén Fontana (argentina), Santiago Pol (Venezuela) e Felipe Taborda (Brasil).
> Além do vencedor foram concedidas cinco menções honrosas para Ariel Mitnick (Chile), Bernardo Elrich (Argentina), Maria Saraiva (Brasil), Maria Carolina Arnal / Waleska Belisiario (Venezuela) e Gustavo Lomano (Argentina). Foram examinados 310 trabalhos e destes 29 foram selecionados como finalistas.


RECONHECIMENTO

UNESCO FORMALIZA APOIO À I BIENAL
> A Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura aprova projeto pedagógico da I Bienal de Artes Visuais do Mercosul. Anteriormente o evento já havia recebido respaldo com relação ao projeto cultural. Depois, a cooordenadora do Setor de Educação da Unesco no Brasil, Maria Dulce Almeida Borges, em correspondência à Fundação Bienal formalizou total apoio da instituição à iniciativa. A coordenadora da equipe do projeto pedagógico da Bienal é Maria Benites Moreno.


- I Bienal de Artes Visuais do Mercosul - 1997 - EDIÇÃO 1 - I Bienal de Artes Visuais do Mercosul - 1997 - EDIÇÃO 2 da cobertura - I Bienal de Artes Visuais do Mercosul - 1997 - EDIÇÃO 3 da cobertura - I Bienal de Artes Visuais do Mercosul - 1997 - Obras de artistas Latinos - Arte do Mercosul, por Jacques Leenhardt - II Bienal de Artes Visuais do Mercosul em Porto Alegre - 2000